terça-feira, 29 de maio de 2012

PRETENSO CHORÃO


Letra: Paulo Robson de Souza
Música: Orlando Brito
Intérprete: Átilla Gomes


Sentir a flauta, o pandeiro, o violão,
o cavaquinho, o bandolim e a inspiração,
botar um pouco de afro-improvisação
ao pretender ser um chorão.
E em três partes ser Callado ou, no cantar, 
ser Pixinguinha, Ernesto... ver Jacob tocar, 
lembrar Chiquinha, ter pedacinhos do céu,
ver tico-ticos no fubá.

Depois tocar essa mistura 
com todo amor, toda destreza 
na sombra da caramboleira
para espantar toda tristeza.
Executar naturalmente 
como quem sola no assobio
cadências da flor amorosa
que floresceu no velho Rio.

E modular
enquanto toca em rondó
— mudando o tom
o choro fica melhor. 
Tocar a flauta
dum jeito bem mais carinhoso,
sonoroso doce de coco
— estranho um choro ser gostoso. 

______________________

Notas:
Faixa do CD Agemaduomi - 10 anos de choro (2006)

AGEMADUOMI:
      Adriano Praça: flauta transversal, sax e clarinete
      Áttila Gomes: pandeiro e canto
      Marco Antonio: cavaquinho
      Orlando Brito: violão de nylon 6 e 7
      Thimoteo Lobreiro: timba com vassoura

Ouça a música e curta o Regional de Choro Agemaduomi acessando

http://agemaduomi.com.br/portugues/menu.htm


Baixe a partitura clicando na imagem abaixo:





REFLEXO INFINITO


No fundo da noite a lua 
enfeita o espelho da fonte. 
No espelho d'água dois olhos. 
Dentro dos olhos o mar. 
Dentro do mar os peixinhos 
que, mirando aquele olhar, 
catam estrelas do fundo 
do mar dos olhos da fonte 
para a lua se enfeitar. 


(2002)


segunda-feira, 28 de maio de 2012

ORCA


Para Cláudia Bran Nogueira Cardoso 




(MENINA)

– Em setembro, no Play Center 
nossa escola foi brincar. 
Foram tantas brincadeiras 
fazendo a gente vibrar... 
Ah! Como adoramos ver 
um mamífero do mar! 


(CRIANÇAS)

– Vimos a baleia orca 
com sua brancona barriga. 
– No dorso, o negro da noite. 
(No ar, uma canção antiga.) 
Vimos sua boca gigante 
beijando as moças, amigas. 

– A baleia dançou tanto 
uma música alemã. 
Às vezes jogava bola 
na água cor de hortelã. 
(Havia mais uma orca. 
Pareciam ser irmãs.) 

– Êta baleia sabida! 
Como é que aguentava 
pular, dançar toda a tarde 
quando se apresentava? 
Parecia ser de vento, 
pois nunca se machucava! 


(PROFESSORA) 

– Seria a orca uma baleia 
que não cresceu o bastante? 
“Aimeudeus”! Virgem! Caramba! 
É de um modo estonteante 
que o dicionário me diz: 
é um golfinho gigante! 


(MENINA)

– Essa baleia malhada 
possui uma força divina. 
Sai pulando que nem cabra 
pela água, tão traquinas! 
Se só mata pra comer, 
não é baleia assassina! 


(Do livro Poesia Animal, de Sidnei Olívio e Paulo Robson de Souza. 
Editora UFMS e Sterna Edições Ambientais, 2003.) 

sábado, 19 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS V - AUSÊNCIAS II






Deixei enterradas no quintal de Conquista bolinhas de gude de um azul profundo. No forro da casa, desenhos de oceanos, peixes que nunca vi.

*   *   *

A palavra ausência é, por si só, muito só.

*   *   *

A adolescência é, também, um processo de senescência: é quando os pais descobrem, entre  marcas de espinhas, as marcas da solidão.

*   *   *

Saudade é a ausência disfarçada de passado.

*   *   *

A solidão não é a ausência física, mas um estado de inconsciência entre próximos.

*   *   *

Canções são lâminas de dois acumens.

*   *   *

O conforto do cacto solitário é ser suporte de cena. Por que sua presença constante em panorâmica de todo filme desértico?

*   *   *

Estrelas são a ausência mais brilhante dos objetos surgidos no céu.


(6.5.5)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS IV - AUSÊNCIAS



  

A dor da paixão é a própria dor da ausência da paixão. São duas dores: uma durante, outra depois. O que vem antes é a ausência.

*  *  *

O espaço das ausências no lar é quase que plenamente preenchido pelos subterfúgios. A ínfima parte que sobra ocupa-se de “se” e senões.

*  *  *

O que dói ao vermos os resultados da História é a ausência da paisagem, dos componentes naturais que determinaram aquela história.

*  *  *

A ausência do pai está presente na poltrona vazia. A do filho é duplo sofrimento: o da perda em si e o de continuar vivendo.

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INDIFERENÇA


Cara de muxoxo
Sangue de rã
Pele seca e fria de calango.
O pior tapa na cara
é virar a cara
ante a certeza de um beijo.

― Fique com sua saudade
que fico com
minha solidão.


(14/3/2005)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS III - DEFENESTRANDO PENSAMENTOS




Nada é definitivo
quando se espera a manhã.

 *  *  *

No mourão,
uma manta de liquens arrepiados.

*  *  *

Mil desculpas, passarinho.
Não vi seu ninho.

*  *  *

Errata
é o arrependimento das letras.

*  *  *

Da última vez que morri
nem percebi.

*  *  *

Compor? O samba, tão popular,
é para poucos.

*  *  *

Em todos os dias da minha vida
defenestrei pensamentos.

*  *  *

Nada é definitivo
exceto o
fim.


(5.3.2005)





sábado, 12 de maio de 2012

TROVAS INFANTIS PARA AS MÃES*




1.
Quanto mais o tempo passa
bem mais aumenta o frescor
do leite materno –  uma Graça!
Mais que uma prova de amor.

2.
Quanto mais o tempo voa
minha mãe, anjo barroco,
muito mais se aperfeiçoa
– como o vinho, água de coco.

3.
É a minha mãe querida
como a mamãe de Jesus:
cuida das minhas feridas
quando encontro a minha cruz.

4.
Tanto amor!...   Como é que cabe
em uma simples mulher,
tudo de bom que se sabe,
todo bem que se fizer?

5.
É como o calor do vento
acordando as sementinhas,
quando a imagem de mãezinha
deita no meu pensamento.

6.
Quisera ter duas vidas
para lhe dar uma delas,
minha eterna salva-vidas!
Ela em mim, eu dentro dela...

7.
Quero ter a Eternidade
pra doá-la à minha mama
pra que seja sua bondade
eterna, a todos que ama.

8.
Que bom se todos tivessem
uma mamãe como a minha...
Ai ai ai... se eu pudesse
dava várias, i-guai-zinhas!...

9.
Divertida aqui em casa,
quando queremos brincar,
minha mamãe sempre arrasa
se a injustiça encontrar.

10.
<                                  >  pra todo mundo...
para mim é só... Bondade.
Bem lá no fundo, no fundo,
é seu nome de verdade!



___________________________

* A brincadeira de hoje, dirigida especialmente às crianças, é recitar essas trovas para a mamãe, depois de colocar o nome dela no espaço da trova número 10.

Modifiquei um pouco essas trovinhas, pois a versão original foi feita para nossa filha caçula Mariana (então com 9 anos) ler para a sua mãe, Elisabeth. Isso aconteceu no Colégio Amor Perfeito, Campo Grande, em 2001. O Original continha a trova abaixo:


                           A vida fica sem graça,
                           o carnaval sem confete,
                           se em minha mão o tempo passa
                           sem a mão de Elisabeth.





terça-feira, 8 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS II (animais ditos asquerosos: tentativa vã)




                                  Cansei de argumentos. 
                                  Na verborragia, 
                                  em busca de entendimento, 
                                  com razão:
                                  o oponente nunca tem razão. 
                                  (19/6) 

                                                   *  *  *

A lagarta sofre de discriminação. Já a borboleta – o despertar do seu sonho – é animal de cor (como diria minha tia racista, que deus a tenha!). 

                                                   *  *  *

Sapos vivem do benefício da dúvida.

                                                   *  *  *

Gambás e mordomos vivem levando a culpa.

                                                   *  *  *

Serpentes têm os olhos na barriga. Nenhuma presa, quando presa, é páreo para as suas possibilidades.

                                                   *  *  *

Expectativa é a mãe da decepção. Pessoas que tem as duas sofrem de ausência. Na primeira, ausência de acontecimentos. Na segunda, os desfechos são como churrasco sem sal.
(14/8)

                                                   *  *  *

Hoje eu e Marco fizemos um xote. Como da outra vez (A Marchinha do Pinguim), saiu a fórceps para cumprir prazo, embora a letra estivesse pronta há semanas. Pressão para mim é mais que uma grandeza física. É vetor de inspiração: acuada, minha sensibilidade secreta imprevistos. Acho que é para arrefecer, evitar o infarto. 
(15/ 8) 

                                                   *  *  *

Ando tão descrente que desconfio até do meu sorriso.

                                                   *  *  *
Minha colega quase enfartou.  Não bebe, não faz farra, não come carne... Econômica até nas palavras, soube de terceiros que o problema é sobrecarga de trabalho. Inevitável aquele desabafo infantil “dane-se, me dê aqui essa picanha gorda. Amanhã não vou trabalhar mesmo...”.  

                                                   *  *  *

Eu e minhas 40 companhias invisíveis temos conversado frivolidades. Pelo pouco que pude perceber, deduzo que só humanos dão-se ao prazer da filosofia. Precisam disso. 

                                                   *  *  *

Pior que telefone mudo é falar com uma pessoa totalmente afônica do outro lado da linha. 

                                                   *  *  *

Tenho escrito muito pouco e, pior, muito mal. Se for culpa da secura do mês de agosto neste cerrado, anseio desesperadamente por torrenciais. Que todo o meu quintal seja alagado, oh céus, mas não me deixem faltar o pão da palavra escrita.  
(17/8) 

                                                   *  *  *

Hoje, fim de agosto, relendo a bobagem que escrevi acima e lembrando-me das trovas que fiz para Margaret Mee (publicáveis com certeza), de-fi-ni-tivamente repulso as crendices sobre os desgostos próprios deste mês. Um dia hei de recortar e pesar as más notícias impressas em jornais dos últimos 10 anos e provarei – cientificamente – que não há mês ruim, mas predisposições ao prejulgamento, cacete.   
(31/8) 

                                                   *  *  *

Foi um poeta idiota quem disse: sonho bom é sonhar junto. Minha prática tem contrariado essa sensibilidade. 

                                                   *  *  *

Seu Mauricio Tibana foi um dos mais importantes encaminhadores da minha vida. Inda iniciante no ofício, pegou a minha mão e disse: é assim que se escreve com a luz! 
(6/10)

                                                   *  *  *

Faltam 31 dias para eu conseguir o meu intento: provar nada para ninguém. Creio que isso é o cúmulo da teimosia.  
                                                   *  *  *

A partir de amanhã começarei a contagem regressiva. Foi bom, foi ótimo, acho que conseguirei 365 dias de escritos ― são mais pré-textos. Não sei de onde retirarei forças, mas acho que conseguirei. 

                                                    *  *  *

Meu amigo Sidnei terá uma surpresa singela dentro de 15 dias. Aprontamento meu e da Nice. Adoro quando o Paulinho de Dona Santa entra em ação. Ele é moleque; eu, nem tanto quanto gostaria. 

                                                    *  *  *

De tão cansado, ando lambendo paredes à procura de portas. Onde estarão meus horizontes? 

                                                   *  *  *

Nisso é que dá ser esquecido. Onde foi parar o tema sobre animais asquerosos, caramba? A frase “os textículos estão logo ali na primeira linha” significa quase seis meses de embromação. Mais demorado que digestão de sucuri na caatinga; mais enrolado que lombriga em intestino de tubarão. Mais digressivo que bando de macaco depois de quebrar a cumbuca ― aliás, nunca vi uma cumbuca! 
(30/11)

(Das agendas de  2005)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

PRÉ-TEXTOS I



Há dias que parecem mortalha.

                                                     *  *  * 

Nas horas cansadas, os minutos demandam eternidades.


                                                     *  *  * 

Não. Não vestimos máscara para vencer o dia. Mas para nos adaptar a cada relação interpessoal (máscaras sob medida, diria o artesão marqueteiro).

                                                     *  *  * 

Religião é refúgio para alguns, muleta para outros, couraça e fortaleza para os medrosos. Re-ligação com Deus, mesmo, fica para os estudiosos de filologia.

                                                     *  *  * 

Muitas religiões têm a capacidade de endurecer o dedo dos tolos. Dedo inquisidor. Dedo que aponta, julga, condena. Espada compacta porém perversa.

                                                     *  *  * 

Toda formação religiosa deveria ter muitas atividades práticas. Não a prática da teoria ou da teologia, mas a pedagogia do exemplo. Pré-requisito maior: práticas de complacência e ética na prática.

                                                     *  *  * 

Resolvi reiniciar minha dieta anfibiana. Tudo bem que sapo é pouco saboroso ― esse não é o problema. Meu maior medo, mesmo, são os efeitos colaterais: o veneno acumulado em meus poros durante a dieta me deixará um ser intragável?

                                                     *  *  * 

Quanto mais sapo engulo, mais escrevo. Pelo menos para uma coisa serve a resignação: revelar bons, medianos e maus escritores.

                                                     *  *  * 

Toda vez que o portão de casa geme, meu coração dá espasmos de alegria e diz: meu filho!

                                                     *  *  * 

Calma, senhores! Nem toda pergunta é digna de resposta...

                                                     *  *  * 

Bunda de tanajura, calango assado, grapete, maria-mole... Essas coisas têm gosto de infância. Meu amigo gaúcho adverte: melhor não conferir (quando um adulto tem recaída,  perdem o gosto).

                                                     *  *  * 

Desde que os mandatários nativos perderam a capacidade de domar os vulcões
que se escondiam nos subterrâneos do Brasil ― aliás, de um tipo peculiar,
pois vomitam lama e mentiras ―, passei a enxergar pompeias em cada esquina.

                                                     *  *  * 

Faça o que eu mando, não se faça de seu pai.

                                                     *  *  * 

Silêncio e solidão são substantivos sem substância.

                                                     *  *  * 

Silêncio: senão (substantivo) e, muitas, vezes, opção. A solidão vem junto (embora assim não esteja sozinha).

                                                     *  *  * 

A solidão mais sofrida é quando está acompanhada. De gente e do paradoxo de ser só estando acompanhada.

                                                     *  *  * 

Essa brincadeira de escrever o que primeiro surgir na cabeça tem lá sua capacidade de resgatar verdades interiores. Desde que não se corrija depois.


(3 de agosto de 2005  ―  não corrigido depois)