domingo, 25 de junho de 2017

LIBERTAS QUÆ SERA TAMEM



                   Felicidade:
                   liberdade
                   de ir, estatelar-se, vir,
                   falar, olhar e sentir.
                   Abraçar sem culpa
                   ouvir o coração alheio
                   (às vezes, o próprio!)
                   sem medo,
                   cheirar e sentir
                   o calor e o pulsar
                   da vida neste abraço.

                   
                   Libertas quae sera tamem:
                   na hora que quiser, no dia que quiser,
                   colher uma rosa-chá
                   e tomar chá
                   de colher...


Paulo Robson de Souza
10.8.2014 (adaptado de prosa do autor)


quinta-feira, 1 de junho de 2017

VINHO VERDE




Não é do verde da uva
Ou dos campos de folhas púberes
Esse nome que uns pensam cor.

Vinho pouco adormecido
Nos tonéis que  lhe emprestam um pouco
Do espírito das árvores.

Vinho moço
Sem muitas histórias
Mas com a alegria de criança.
Vinho verde.


                          Paulo Robson de Souza, 1999


sábado, 20 de maio de 2017

MANHÃ INDECISA


Sol e nuvens brincam de esconder e, sem querer, me revelam uma lembrança perdida, um poema da Cecília que ouvi tantas vezes na minha infância, na voz doce da professora carinhosa cujo rosto se apagou da minha memória... Ou Isto ou Aquilo, é o nome.
Da rede do quarto, a vista emoldurada pela janela está mais pobre: as mangas-rosas da vizinha já se foram, carcomidas pelos fungos e bactérias e pelo desprezo de quem não soube lhes dar valor. Esta visão apetitosa que me acorda desde dezembro, agora, só ano que vem, se o tempo parar de nos pregar peças, nesses tempos pré-apocalipse. Nuvens mudam de tom e perambulam, agoniadas pelo peso do líquido que começa a brotar da equação calor e pressão atmosférica.
Sábado branco, logo depois multicor; o tempo fecha de novo, e de novo se abre... Não sei se deito, ou se volto a dormir. Ou  mais eufemismo impossível , apenas dou um descansadinha nos olhos, como diria a minha vó Dila quando pega cochilando na cadeira de balanço.


PRS - 15.2.2014

CORAGEM!



― Paaaaaaaaaaaaaaiiiiiii! Venha aquiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Corri para o quarto, pensado que fosse um daqueles ratos que vez em quando aparecem no quintal, ou um carrapato do Morfeu, cão que encontrei na rua há três dias, mais infestado de parasitas que toca de onça magra.
Encontrei minha filha aos prantos, com o computador aberto. Acabou de saber que fora chamada para assumir uma vaga em serviço público federal em Ponta Porã, cidade localizada a 500 km de onde moramos, Campo Grande. Primeiro lugar em concurso muito disputado, vai exercer a profissão sem qualquer experiência, tocar sua vida de modo independente, sonho de todo jovem recém-formado.
Disse-lhe palavras reconfortantes, falei da dádiva que recebeu, que é preciso encarar com alegria novos desafios, etcœtera et al, como diria meu falecido tio João Ribeiro, pedreiro sábio, viajado e que falava bonito (na minha infância ele adorava encerrar as frases como o que eu entendia como “e tal”). Depois de dar todo tipo de conforto se espera de um pai, saí com esta:
― Coragem minha filha! Você é filha de Paulo Robson de Souza, sujeito destemido... (pausa)... que não tem medo de ratos, mosquitos e carrapatos. Ela riu. E saiu para encarar o dia de frente.


Paulo Robson de Souza
18.2.14

NA CIDADE DE PELOTAS


Em Pelotas o prumo é diferente. A sombra é diferente. Como disse minha mãe aqui certa vez, Dona Santinha, há algo no ar que não se explica, mas que nos dá a sensação de estarmos no estrangeiro.
O sol aqui se põe mais tarde, muito mais tarde. Jantar de dia é algo peculiar.
A umidade é tanta que jardins florescem sobre as telhas antigas. E pequenas bromélias crescem em fios de alta tensão.
Há jardins bonitos em frente a casas sem cercas, ruas com calçamento antigo, sobrados seculares com parapeitos de ferro inglês, e a planura do terreno é um convite às caminhadas. Desde que não se mire os doces que se cristalizam em cada esquina, pode-se até sonhar em emagrecer sem esforço.


PRS - 24.2.14

DO ARCO DO PLEISTOCENO



Desde ontem não para de chover nesta cidade de Pelotas, úmida por definição. Chuva fina, dengosa, ornada de pássaros cantantes... Enfim, daquelas que brotam do bocejo de Morfeu.

Um paradoxo, em meio a tanta nebulosidade e umidade relativa saindo pelo ladrão da coluna de ar que pressiona meu corpo, eu aqui mais seco que charque em embornal de cangaceiro.  Meus olhos parecem seixos, minha cara é uma preá moqueada, boca tomada de farinha... Aiaiaia, esta tese que teima em me desidratar até a alma, me afogando em caatinguices...  


PRS
Pelotas, 26.2.14

UM CAÇUÁ DE FOTOS



Tenho um outro caçuá de lembranças perdidas. Fotos, milhares de fotos feitas na pressa do fim do raiar do dia e da meia noite, tempo morrendo no contar do meu desespero. Coisas de ansiedade, produzir mais que a capacidade de organizar, classificar, rever... Para um biólogo, amostra e foto sem etiqueta é material perdido, a depender da finalidade. Fotos de formigas em ninho feito em ramo morto então, são um arrepio, de tão parecidas, incodificáveis.  A sorte é que, para algumas sessões, tive o cuidado de fotografar um bilhetinho ao lado, arremedo de ficha.

PRS
2.3.2014

ANIVERSÁRIO DE BETH



Hoje minha amada atingiu uma importante marca da maturidade, mas com corpinho de 30, disposição de 20, alegria de 15; vontade de viver, de ajudar e de ser feliz (ajudando): a cara de todas as idades saudáveis. A cara de Beth.

Bom demais, termos compartilhado quase metade desses consideráveis anos vividos! A promessa “na alegria e na tristeza” vivida na prática, e não na vazia superficialidade da palavra recitada por padre que nunca nos fez prometer, pois sequer nos viu diante dos seus rituais (pois não foi preciso). Uma vida a dois sem perdermos nossa individualidade. Na alegria e na tristeza. Na dureza da rocha e na poesia da flor. Que começa com a passagem do cometa Halley...

PRS
6.3.2014

ATEMPORAL, MEU MAL




― Lucimara aqui é o Paulo Robson como vai você tem um tempinho para me atender estou no Sul não estou conseguindo sacar dinheiro o cartão está bloqueado ― falei assim de supetão, vício do tempo da ficha telefônica, em que um ponto de interrogação determinava ou não a interrupção da conversa (não pela interrogação em si, mas pela resposta que se sucederia à pergunta).

― Professor, o senhor terá de esperar o banco abrir, na segunda... ― falou-me ao celular uma voz doce e calma de gerente atenciosa, jeito de quem acabara de acordar e não acreditava no que estava ouvindo. Pego de surpresa pela impropriedade da ligação, devolvi a gentileza com uma saraivada de mil perdões ai que vergonha meu deus sou perdido no tempo jura que hoje não é sexta-feira desculpe desculpe desculpe ai que vergonha bom final de semana pra você e sua família. E desliguei rapidinho (a ficha caiu).


Paulo Robson de Souza
01.3.14

terça-feira, 16 de maio de 2017

PRÉ-TEXTOS VIII (BOCA SECA DE ASCO)



Acordei com a boca seca de asco, olhos inchados de pesadelos e uma ausência de temeridades em todos os poros. Hoje não estou nem para mim.

*  *  *

        Há um bentevi
        no meu quintal
        que todo dia me chama.
        Parece que clama
        por uma tigela d’água.
        Qual de nós terá maior sede?

*  *  *

        Afinal não entendo
        Qual a do passarinho
        Que alimento,
        Dou todo dia um pote de água fresquinha
        Mas que não me nutre
        Com um ninho.

*  *  *

Borboletas transgridem o vento.

*  *  *

Borboletas tingem as flores de escamas coloridas.

*  *  *

Cerquei-me de mentiras, mergulhei nas intrigas em revista neste meu modorrento sofá. Notícias escorrem por entre meus dedos, tão pesadas estão. Sim, hoje é domingo. Quisera ter um pé-de-cachimbo.

Paulo Robson de Souza
27/02/2005

Da série Poesia Todo Dia!

PRÉ-TEXTOS VII (SOBRE A INTUIÇÃO)




Tinha cochilado no finzinho de tarde e minha filha me achou “com cara de bravo”. Algo muito estranho, ter pesadelos durante um cochilo. Agora só me resta dormir.

*  *  *

Há algum tempo li um desses artigos acadêmicos. Argumentava sobre a tendência que os pesquisadores têm, à medida envelhecem, de substituir parte do pensamento científico por atos mais relacionados à intuição.  Penso ― penso? ― que neurônios envelhecidos tendem a desacreditar o sentido racional que certas coisas nos oferecem, passam a duvidar das certezas e a se cansar das interrogações. Em outras palavras, a senilidade torna dois sacos cheios: o próprio, e algum tipo de “saco mental”, aquela região cerebral que costuma mandar o mundo às favas toda vez que um idiota, um pretenso inteligente ou o pior tipo de gente, o arrogante, abre a boca inoportunamente.
Minha intuição me diz que hoje não devo sair de casa.


Paulo Robson de Souza
28/02/2005

Da série Poesia Todo Dia!

NA BUCHA



Necas de pitibiribas é uma daquelas expressões que nunca soube o pleno significado, mas que sempre as empreguei com reverência e zelo.

*  *  *

Ser aeroplano é o sonho de todo teco-teco.

*  *  *

Guimarães disse que viver é correr perigo. E não viver? É o tédio. A dor silenciosa da amofinação.

*  *  *

O arrepio é o soluço do corpo.

*  *  *

Nunca é nada, ausência que jamais considerarei.

*  *  *

Hoje colhi sorrisos dentro de minha boca.

*  *  *

Machado de Assis, um bruxo? Mais que isso: um pervertedor de orações fáceis. Um luxo. Um esdrúxulo, in plenis verbis. Plenitude linguística.

*  *  *

Cansei das desafinações das operetas cotidianas. Busco a ópera diuturna nas entrelinhas da baixa comédia.

*  *  *

Quer conhecer o amigo? Contrarie-o e o espere sentado, com cara de quem amanheceu com vertigem ― a do tipo objetiva, que é para aumentar a dramaticidade.


10/3/05
Da série Poesia Todo Dia! (sem cortes)








segunda-feira, 15 de maio de 2017

IMPRESSÕES




Ter a consciência do próprio corpo, de modo tão racional, não é bom pra mente. Não sabê-lo causa menos dor.

*   *   *

Definitivamente, um abraço é melhor que um amasso. Principalmente um abraço de seis meses de atraso ante o amasso de ontem.

*   *   *

Não, não é poesia: ouço o meu coração cada vez mais. Coisa de biólogo metido a besta que desenvolveu o sentido de se auto-auscultar. Ou de poeta cansado.

*   *   *

Pimenta, mesmo no fiofó dos outros, arde meus olhos. Desgraça alheia não tem graça nem rima bem.

*   *   *

Quando minha amiga nipônica me abraçou hoje, perdi meu oriente.

*   *   *

Ninguém me contou, nem eu mesmo a mim ― pode isso, Fernando? ―, mas estou desconfiado que a poesia é meu projeto de fuga.

*   *   *

Devo ter um nervo ligando o queixo diretamente ao estômago, pois a cada soco do dia o reflexo é imediato: da mucosa jorra ácido clorídrico de balde. E, também numa infeliz associação direta, debalde como folhas de boldo.

*   *   *

De tão estressado, até toque de telefone me embrulha o estômago e para a respiração. Tou pensando em romper ligações. Principalmente com o nervo vago.




6 de junho de 2005
(da série Poesia Todo Dia - sem cortes)


terça-feira, 11 de abril de 2017

PRETÉRITOS



Alegria de fotógrafo é roubar a cena. Já os atores olham e... acenam (talvez se satisfaçam com isso).

* * *

Quando crescer quero ter milhões  ―  disse o filhote de canjica  à grama esmeralda.

* * *
As telas de Picasso são o espelho do inconsciente ― dos outros.

* * *

Boi de piranha é, também, o caminhoneiro atrasadão ― nos dois sentidos.

* * *

― Mamãe, mamãe, quando receberei meu “mensalinho”?
― Cala a boca, Jeffinho. Dinheiro não trás felicidade. Não assim, no diminutivo...

* * *

Depois que inventaram o ostracismo, as ostras ficaram algo sésseis, sem assunto...

* * *

Considerando o que insinua o radical, “hipocrisia” deveria ser algo muito pequeno. Mas aí vieram os radicais e esculhambaram toda nossa inocência.

* * *

Sou especialista em generalidades. Mas tem tanto picareta se metendo em todo tipo de assunto que resolvi cassar meu título. Eis um “ex voto”.

* * *

Quarentão*, até hoje não sei o que é “pretérito do subjuntivo”.




*6/7/2005
Paulo Robson de Souza
(Da série 
Poesia Todo Dia!)


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A MARCHA DO AVESTRUZ



Para Braguinha, o João de Barro (1907-2006)


Música: Adriano Praça
Letra: Paulo Robson de Souza
Intérprete: Áttila Gomes

Do Livro Animais Mais Mais 
(com CD de músicas encartado)



(CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR)

Página do livro Animais Mais Mais






(CLIQUE NA IMAGEM PARA BAIXAR A LETRA E PARTITURA)

Capa (aberta) e segunda orelha do livro



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

FREVO DA CAPIVARA (partituras para sax, trompete, trombone e canto)


Música: maestro Adriano Praça
Letra: Paulo Robson de Souza
Intérprete: Áttila Gomes

Do Livro: Animais Mais Mais (com CD de músicas encartado), 2011




Clique na imagem abaixo e obtenha, gratuitamente, partituras do maestro Adriano Praça para 
sax barítono, sax tenor, sax alto, 
trombone, 
trompete e 
canto 
(inclusive grade)




Para obter letra e vídeo, clique na imagem:
Capa (aberta) do livro e orelha direita

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

CHOROS NA PRAÇA

(Galvão/Paulo Robson de Souza)


Intérprete: Áttila Gomes



(CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR)




É duro ver todo esse choro pelas praças:
A namorada chora o amor que terminou
O velho ipê vê os seus braços amputados 
E o coreto abandonado
Clama um tempo que passou.

Um chora as contas por pagar nessa dureza...
Uma mulher pranteia o filho que se foi
Tem, inclusive, o fazendeiro muito rico
Que nem sabe o que é penico
Mas chora a baixa do boi...

O pipoqueiro chora o milho derramado
E o pardal com frio e fome quer Piaf...
E o baiano com saudade da Bahia 
Ao comer comida “fria” 
Diz: Virgimaria! Aff!

O olho-gordo quer morrer pela vergonha
De ter caído na conversa do golpista...
A mulher triste chora por sua tristeza
Chora a pomba à impureza
E o cão, a perda das vistas...

                Com tanto choro pelas praças, venha, Música!
                Oh! Deusa Música com seu dom de tocar
                Os corações, trazendo a todos a esperança
                Nem que seja por um dia
                Pra que parem de chorar...

                Com este choro que não é choro de tristeza, não!
                A esperança nesta praça semear
                Onde há esperança brotarão muitos sorrisos:
                Nós tocamos com alegria
                Pra a alegria germinar...


Piano: Marcopolo Cerzósimo
Violão: Galvão
Clarinete: Matheus Coelho
Percussão: Áttila Gomes

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

IMPOSSÍVEL VIVER SÓ

Para Raquel Nicodemo, Chico, Calombenta, Beethoven e Gorda*


Quatro léguas caminhei
Quatro cantos palmilhei
Enfrentei grande calor
Feito pedra me escondi
Do bravo jaguarundi
Pra encontrar o meu amor.

(Refrão)
É impossível para a gente viver só
Viver sozinho, só viver e viver só
É bem pior, é bem pior...
É bem pior, é bem pior...


Fiquei todo estropiado
Ao vencer matos cerrados
Até cactos comi
Enfrentei botas com esporas
Para sermos sem demora
Um casal de jabutis...

(Refrão)

Hoje estou todo contente
Ela, toda previdente,
Enterrou o nosso amor.
Viva a reprodução!
Nossos filhos vêm do chão
Feito a mais bonita flor.

(Refrão)
 (da série Poesia Todo Dia - 22.9.2014)

___________________________

* Olá criançada! Fiz esta letra de música (dentro do gênero baião) depois de conhecer os filhotinhos de jabuti que que nasceram no sítio da menina Raquel, há uns seis anos, em São Carlos (SP).  É muito bonito ver os jabutizinhos saindo de ovos enterrados, tal como acontece com as tartarugas-marinhas!

Mas até hoje não sei quem é pai ou a mãe de quem (eram quatro jabutis: 
Chico, Calombenta, Beethoven e Gorda). Na dúvida, dediquei o baião a todos eles! 



domingo, 15 de janeiro de 2017

O CACHORRINHO PEIDÃO



O que este Ted tem de pequeno, tem de peidão. É cada pum fedorento que dá vontade de correr para lavar o nariz. Gases silenciosos soltos enquanto dorme: peidos rasteiros, é o que bem sabe fazer esse cãozinho disfarçadiço!

*   *   *

Se for verdade que o cão se parece com o dono, minha reputação está comprometida!

*   *   *

Ted me fez lembrar que bufa é sinônimo de peido, sendo o primeiro termo muito usado na Bahia. Desde criança acho esta palavra engraçada. Se não for onomatopeia, deveria sê-lo. Ô palavrinha que se parece com o que representa: buffff. Parece o fiofó assoviando. Daí a entender o porquê de camisa bufante ter este nome é um traque: parece quem tem gases infláveis dentro das mangas.
Adoro etimologia. Ela torna as palavras cheias de graça. Ou de gases, neste caso.


Paulo Robson de Souza 
12 e 13.4.2014 (da série Poesia Todo Dia!)


Ted "caçando" guruçá na praia de Barra do Sargi, Ilhéus, em 2013

COITADO!


– Alice, estou saindo de férias...
– Coitado!
– Alice, comprei um monte de doces pra gente!
– Coi-tado...
– Vou buscar o seu pagamento, Alice.
– Coita-do!
– Estou indo tomar um vinho na casa de amigos...
– Coi-ta-do!!

Nossa diarista tem este hábito engraçado de exclamar “coitado” diante de qualquer afirmativa, boa ou ruim. Penso que tal comportamento nada tenha a ver com a personagem Filó do humorístico da TV, mas ainda assim é uma graça! 
Não vejo a hora de ouvi-la soltar seu bordão após eu dizer algo como “ganhei na Mega-Sena”, “vou passar 15 dias percorrendo praias, vulcões inativos e florestas da Costa Rica”... Vai ser mais engraçado do que o dia em que o Arnildo me contou a origem etimológica da palavra coitado...



Paulo Robson de Souza - 16.5.14

SIM, VELHOS

 

Ontem recebi uma querida professora que há meses não via. Chegou com aquela alegria que só encontramos em apresentações dominicais de circo, prontamente retribuída com um abraço de quebrar clavícula. Envoltos em riso puro de 180 graus estavam jardins botânicos, impressões, maravilhas e decepções experimentadas na sua curta passagem por Londres.

Contou-me histórias incríveis. O que mais me impressionou, desse encontro cujo tempo de passagem se perdeu, foi sua crônica – sim, uma crônica oral – sobre o modo respeitoso de como os ingleses encaram e acolhem os velhos. Tivesse eu um gravador, teria uma crônica feitinha, pronta para publicar em seu nome, se me permitisse.

Tímida, mais recatada que ostra de ressurgência capixaba em dia de frio, só publica o necessário, não se expõe, não se entrega, não se dá o direito de mostrar o que lhe é mais humano.  Sabendo disso, a conversa acabou assim:

– Por que você não cria um blog? Sim, minha cara! Não é para você, para seu capricho e vaidade (que não tem), mas para contribuir para a evolução da humanidade. Sim, porque não há nada mais desrespeitoso à pessoa humana do que desprezar os idosos, tratar o velho como escória... Nos seus olhos, uma promessa de "vou pensar nisto com carinho, seu maluco".


Paulo Robson de Souza
20.5.14
(da série Poesia Todo Dia)

DELICIOSAS RECICLAGENS



Nossos pais sempre nos ensinaram a não desperdiçar comida. Que pecado, falavam, com tanta gente passando fome no mundo!

Carrego essa lição comigo desde sempre. Muito antes da reciclagem virar moda, lá estava eu transformando o arroz de ontem no delicioso bolinho de arroz quentinho, da hora; mais frequentemente, o arroz esquecido na geladeira é aquecido e reidratado no vapor da cuscuzeira, com um pouco de azeite, para esmaecer a lembrança do seu passado. Os talos de couve viram guloseimas depois de cozidos no vapor. Até bolo de banana com casca e tudo eu já fiz, resultando em uma “coisa” arroxeada mas gostosa e, logicamente, rica em fibras.

Leite azedo? Um pecado, jogá-lo fora. Cozido e coado em peneira fina, às vezes vira uma quase ricota em nossa casa, mas neste caso, pasta cheia de ervas, azeite e um pouco de pimenta calabresa. Asseguro: mais gostosa que o produto dos supermercados. O mais frequente, contudo, é virar doce de leite. Receita jamais repetida, vai à panela com o que tiver à mão: casca de limão, cravo, canela, ovo batido (para ficar com jeito de ambrosia), banana madura, pitada de sal, colherinha de manteiga... A graça está em perder horas e horas transformando meio litrinho de coalhada em um doce irreproduzível. O tempo gasto, o trabalho e o gás consumido não justificariam tamanha bagunça na cozinha, mas... Desperdiçar, jamais!

Paulo Robson de Souza 
15.5.2015

SE CORRER...



Invoquei meus anjos, rezei, me benzi três vezes, segui, enfrentei o medo que sempre exalou do semblante de uma pessoa dúbia e o sol nasceu em mim à plena luz do meio da tarde.



PRS 16.10.2014

ANTICRÔNICA


Ela me perguntou se tal bobagem entraria na crônica. Silêncio. Não, pensei, é muita bobagem para merecer uma linha de texto.


PRS 31.10.2014

O BUTIÁ DO JOÃO



Bateu ao portão, muito após o jantar, um sujeito magro, simples e querido. João. Há décadas nosso vizinho. Trouxe um potinho cheio de butiá, coquinho do Sul levemente azedo, gosto de infância da Beth.
Uma dádiva, ver o fruto do que foi plantado com tanto carinho e zelo há mais de dez anos. Esta ― disse-me ―, foi a segunda, porém a melhor produção. Não vejo a hora de Beth retornar de viagem de campo, e ver sua carinha de felicidade por presente tão imprevisível.


PRS 21.10.2014


                                                                                                                             (da série Poesia Todo Dia)